Portuguese English French German Hindi Italian Russian Spanish
Imprimir

Santosha

Escrito por Enki. Posted in Yoga

Ao observar a Natureza, podemos constatar que todos os seres vivos passam sua existência num esforço diário para estarem numa condição melhor do que estão. Essa busca natural pelo bem-estar e paz é empreendida tanto pela árvore, quanto por uma ave, um cachorro ou pelo homem.
 

No entanto, a relação humana com esta busca pode e deve ser feita sob a luz do discernimento. Enquanto que para os animais a condição de satisfação interna é totalmente dependente do meio externo, no homem essa condição de satisfação interna pode e deve ser cultivada internamente.

A prática de santosha é de extrema importância, pois ela é uma virtude que nos ajuda a solidificar nossas bases espirituais para que, gradualmente, possamos alçar vôos mais altos.
 
Para a grande maioria das pessoas, a sensação de satisfação mental e de paz ainda é tida como tendo sua causa nos objetos exteriores, sejam eles uma casa, um carro ou até mesmo outra pessoa.
 

Mas o praticante espiritual deve compreender que o contentamento é um estado de espírito, uma conquista feita pela sabedoria e não algo intelectualizado.
O contentamento não é algo derivado de uma reação mental sobre um incidente específico. Mais do que isso, o contentamento é um estado que não depende de qualquer incidente externo para ocorrer.
Num sentido mais profundo e esotérico, contentamento é o estado de espírito onde o praticante espiritual aprende a estar feliz com aquilo que possui ou experimenta no momento, ficando sempre consciente da transitoriedade das coisas.
 

Para ilustrar melhor o estado de Santosha, conto uma breve parábola indiana:
 
“Em uma vila remota, aos pés do Himalaya, vivia um sábio de forma reclusa, isolada. Apesar de nunca ter se proclamado sábio e mestre de ninguém, o velho senhor era assim tachado pela população local.
Certo dia apareceu um senhor acompanhado de sua jovem e bela filha.
Ao se aproximar do mestre, o pai da garota falou respeitosamente:” Senhor, venho a ti pedir-te para que instrua a minha única filha na senda da Verdade. Ela é a minha jóia mais preciosa e a confio a ti. Por favor, aceita-a.”
 

O mestre escutou as palavras e apenas respondeu: “É mesmo?” – continuando a mexer sua comida que cozinhava em uma panela de barro.
 
Por meses o mestre ensinou e cuidou da garota com todo apreço.
Nesse mesmo período, a garota se apaixonou por um garoto da vila e acabou engravidando.
Envergonhada e sem saber como proceder corretamente, resolveu fugir e contar a seu pai que o mestre a havia violentado e que agora estava grávida.

Ouvindo essa história da boca de sua própria filha e não desconfiando de seu caráter, o pai da garota foi imediatamente ter com o mestre e lá chegando disse fora de si: “Hipócrita! Como ousa achar-se sábio e tomar a guia de outros sobre a sua responsabilidade? Minha filha está grávida e o filho é seu! Minha filha é uma jóia e nunca mentiria para mim! Por conta disso você ficará fadado a cuidar da criança assim que ela nascer. Por pra minha filha volta a ficar comigo. Nunca mais a verá, velho hipócrita!”
Escutando tudo com tranqüilidade, mais uma vez o sábio respondeu: “É mesmo?”

Ao saber dessa história, toda a vila passou a desacreditar o mestre e a emitir julgamentos e contar histórias sobre o caráter impróprio do mestre.
Passado os nove meses da gestação, a garota deu a luz a um lindo garoto que prontamente foi levado ao mestre e entregue a seus cuidados.
Por anos o mestre cuidou daquela criança como seu próprio filho e o instruiu na senda da Verdade.

Após sete anos, a garota já não agüentava mais o remorso em seu coração e acabou por confessar ao seu pai a mentira que vinha sustentando por todo esse tempo.
Ao saber da mentira, o pai se encheu de vergonha, não pelos atos da filha, mas pelos seus próprios atos, pela maneira como ele e a vila toda vinham tratando o velho sábio por todos esses anos de forma injusta.
Correu o mais rápido que podia para a cabana do mestre e se prostou no chão dizendo suplicante: “Senhor, rogo que me perdoe! Soube a pouco da mentira de minha filha. Por favor, perdoe-me por ter infligido a ti tamanho fardo!

Vim buscar o neto que reneguei a sete anos e libertá-lo desse fardo injusto!”
Escutando atentamente o sábio respondeu com plena doçura no olhar: “É mesmo?”.
Mesmo depois de todas as experiências vivenciadas, tanto de dor como de alegria, o mestre se manteve inabalável em sua paz interna, não se apegando nem a dor, nem a alegria, pois sabia que ambas eram passageiras. Ele estava firmemente estabelecido no princípio de Santosha, sendo feliz em sua paz e tranqüilidade mental.
Para se estabelecer em santosha, a mente deve se preparar gradualmente, buscando a cada experiência exercer o controle sobre as relações de prazer e dor, através do discernimento sobre a transitoriedade de ambas.

A raiz da felicidade está na mente.
E a raiz do sofrimento está no desejo.

Um antigo verso indiano nos diz:

Asha nam manushyanamkachitdashwaryashrunkhala |
Yaya baddha pradhavanti muktastishathatipanguvat ||

"Esperança é como uma corrente que, quando presa a ela, a criatura começa a corer.
Quando libertada dela, a criatura encontra a paz profunda."

A palavra “esperança” vem de “esperar”.
O ato de esperar invariavelmente requer um objeto para existir, seja ele mental, espiritual ou físico.
E quando esperamos algo geramos espectativas. Espectativas essas que tem sua raiz plena em um desejo, em um "querer".
Num sentido mais profundo da prática spiritual, todo o desejo, até mesmo o da liberação ou iluminação, é visto como um anel da cadeia de sofrimentos.

Mas para aquele que busca Santosha, Patanjali deu a seguinte descrição do que ocorre com aquele que se mantém no estado de Santosha:

Santoshdanuttamsukhlabhah | P Y S 2.42
"Felicidade incomparável e sem precedentes vem àquele que pratica o contentamento."

Visitantes no site

Temos 8 visitantes e Nenhum membro online